Editorial
Uma mulher é assinada a cada 5 horas no Brasil e seguimos agindo como se fosse normal.
Não dá mais pra tratar isso com frieza técnica. Não dá pra fingir que é só mais um dado.
Segundo levantamento divulgado pela imprensa, o Brasil registra um feminicídio a cada 5 horas e 25 minutos. Repito: a cada poucas horas, uma mulher é morta simplesmente por ser mulher.
E, sinceramente, isso não choca mais como deveria. E talvez esse seja o maior problema.
Porque esses crimes não acontecem do nada. Não são surtos isolados. Eles têm roteiro: começam com controle, ciúme, ameaça, agressão. Todo mundo vê, ninguém faz nada efetivo até virar notícia.
O país tem lei. Tem a Lei Maria da Penha. Tem tipificação de feminicídio. Tem medida protetiva. No papel, parece que estamos avançados.
Mas na prática?
Na prática, a medida protetiva vira papel ignorado. A denúncia vira número. E o Estado chega tarde. Sempre tarde.
E aqui precisa ser dito com todas as letras: não é só falha da lei. É falha de execução. É falha de prioridade. É falha de resposta.
Enquanto isso, a violência vai escalando. O agressor testa limites e percebe que pode ir mais longe. E vai. Até o ponto final.
E tem outro incômodo que muita gente evita falar: a banalização. Ainda se relativiza. Ainda se trata como briga de casal. Ainda se fecha os olhos para sinais óbvios.
O resultado está aí, frio e repetitivo: uma mulher morta a cada poucas horas.
Não é falta de informação. Não é falta de aviso. É falta de ação de verdade.
Porque quando o Estado falha em proteger, ele, na prática, permite que isso continue acontecendo.
E aí vem a pergunta que incomoda e precisa incomodar:
quantas mais precisam morrer até isso deixar de ser tratado como rotina?
Porque, do jeito que está, não estamos enfrentando o problema.
Estamos convivendo com ele. E isso, por si só, já é inaceitável.








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