Editorial
JB Moura
Quando o árbitro começa a mudar as regras durante a partida, o problema deixa de ser quem ganha ou perde. O problema passa a ser o próprio jogo.
O que aconteceu na noite de 1º de outubro não deveria ser tratado como mais uma confusão eleitoral. O último debate presidencial antes do primeiro turno acabou cancelado depois de sucessivas decisões judiciais, tomadas praticamente na hora do programa, alterarem pontos das regras previamente estabelecidas. A própria Globo afirmou que as decisões provocaram “insegurança jurídica” e interferiram em regras anteriormente acordadas com os partidos.
A expressão é forte, mas inevitável: um show de horror institucional.
Não porque a Justiça seja desnecessária. Ao contrário. Nenhuma democracia sobrevive sem um Judiciário forte, independente e capaz de conter abusos.
Mas existe uma diferença enorme entre garantir as regras e reescrevê-las quando a partida está prestes a começar.
E foi justamente essa sensação que o episódio deixou.
A ministra Estela Aranha, do TSE, atendeu a pedido da coligação de Lula e invalidou parte das regras do debate referentes ao candidato ausente. A ata havia sido previamente assinada pelos partidos, inclusive pelo PT. A decisão impediu a manutenção do púlpito identificado e perguntas dirigidas ao candidato ausente.
Pouco depois, outra intervenção.
O ministro Gilmar Mendes, do STF, determinou a participação de Renan Santos no debate, modificando novamente a configuração prevista para aquela noite.
Cada decisão possui sua fundamentação jurídica e pode, evidentemente, ser defendida ou contestada.
Mas o problema que deveria preocupar o país é o conjunto da obra.
Imagine uma partida de futebol.
Os jogadores conhecem o regulamento, treinam e entram em campo. Quando a bola está prestes a rolar, o árbitro muda um procedimento. Minutos depois, nova interrupção. Muda-se outra condição. Determina-se quem entra. Reinterpreta-se aquilo que todos imaginavam estar previamente definido.
Chega um momento em que a discussão deixa de ser sobre qual time foi beneficiado.
A pergunta passa a ser:
ainda existem regras suficientemente previsíveis para todos?
Esse é o ponto.
Democracia não significa apenas eleições.
Significa também segurança jurídica, previsibilidade, liberdade de imprensa e limites claros para cada instituição.
A reação das principais entidades representativas da imprensa mostra que a preocupação não ficou restrita à Globo. ABERT, ANER e ANJ manifestaram “profunda indignação” e classificaram as intervenções como uma “agressão à liberdade de imprensa”.
É uma acusação grave.
E merece reflexão independentemente de quem seja o candidato beneficiado ou prejudicado naquele instante.
Porque esse é precisamente o erro que cometemos repetidamente no Brasil: avaliamos o tamanho do poder de uma instituição a partir de quem está sendo atingido por ele.
Se a decisão prejudica nosso adversário, aplaudimos.
Se amanhã o mesmo poder for usado contra nós, protestamos.
Instituições democráticas não podem funcionar assim.
O PERIGO DOS PODERES QUE ALIMENTAMOS
Durante anos, o Brasil assistiu ao crescimento do protagonismo do Judiciário nas grandes controvérsias políticas, eleitorais e sociais.
Muitas dessas intervenções surgiram acompanhadas de uma justificativa aparentemente irrecusável: era preciso proteger a democracia.
Mas existe uma pergunta que não pode mais ser evitada:
quem estabelece os limites daqueles que receberam a missão de proteger os limites?
Esse talvez seja o verdadeiro monstro que ajudamos a alimentar.
Não um ministro.
Não um tribunal.
Mas a ideia de que, em nome da defesa da democracia, determinados poderes podem ser continuamente ampliados sem que a sociedade discuta com a mesma intensidade onde eles devem terminar.
Poder excepcional cria precedentes.
Precedentes tornam-se costume.
E aquilo que ontem parecia extraordinário pode amanhã ser tratado como absolutamente normal.
NENHUM ÁRBITRO PODE SER MAIOR QUE O JOGO
O cancelamento do debate passará.
A eleição também passará.
Governos passam. Candidatos passam. Ministros passam.
Os precedentes permanecem.
Por isso, o episódio não deveria ser arquivado como simples confusão de uma noite eleitoral.
O que aconteceu coloca diante do Brasil uma questão muito mais importante:
quando as regras podem ser modificadas sucessivamente momentos antes da partida, quem realmente passa a determinar o jogo: as regras ou o último apito do árbitro?
A democracia precisa da Justiça.
A Justiça precisa de independência.
Mas independência nunca significou ausência de limites.
Porque nenhuma instituição democrática pode se tornar maior do que aquilo que foi criada para proteger.
E nenhum árbitro pode ser maior do que o jogo.








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