Editorial
JB Moura
Às vésperas das eleições, o debate presidencial expôs um fenômeno cada vez mais presente na política brasileira: candidatos falando para convencer e eleitores assistindo para confirmar aquilo em que já acreditam.
O debate de ontem deixou uma questão no ar: quanto de tudo aquilo realmente ajudou o cidadão a decidir seu voto?
Entre acusações, provocações e tentativas de constranger o adversário, as propostas acabaram perdendo espaço. Muita fumaça, pouco fogo. Levantaram-se suspeitas, produziram-se manchetes, mas nem sempre houve o mesmo empenho em apresentar provas, explicar soluções ou discutir os problemas concretos do país.
Do outro lado da tela, um eleitorado profundamente dividido. Para muitos, a política assumiu a lógica das torcidas de futebol: o que vem do seu candidato merece aplausos; o que parte do adversário provoca rejeição. Pouco importa, às vezes, o conteúdo. Importa quem falou.
E assim, o debate corre o risco de se transformar num espetáculo de pouca utilidade para a formação de uma opinião independente.
É verdade que, tão perto das urnas, muitos eleitores já chegam com suas convicções consolidadas. Mas isso não significa que o debate seja inútil. A democracia ganha quando os candidatos precisam se expor, responder perguntas e revelar, ainda que parcialmente, suas ideias, atitudes e prioridades.
O problema é que, há algum tempo, esses encontros parecem disputar mais a repercussão do dia seguinte do que a compreensão do cidadão.
No fim, permanece uma inquietação: estamos assistindo aos debates para conhecer melhor os candidatos ou apenas para encontrar novas razões para continuar pensando exatamente como antes?
Talvez essa seja a maior mudança na política contemporânea. O debate continua existindo, mas sua capacidade de produzir reflexão disputa espaço com a força das convicções previamente estabelecidas.
A democracia precisa de debates. O eleitor precisa de respostas. E o Brasil precisa de muito mais do que um espetáculo de acusações.








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