Relatório interno aponta desabastecimento de 25% do catálogo da maior emergência do estado; insumos vitais como noradrenalina e morfina operam no limite enquanto hospital absorve traumas e AVCs de todo o RN.
A saúde pública do Rio Grande do Norte vive mais um capítulo de extrema preocupação. Um memorando interno emitido pela Divisão de Farmácia do Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel (HMWG), localizado em Natal, revelou que a maior e mais importante unidade de urgência e emergência do estado opera com um desabastecimento de 189 itens de seu estoque. O número representa que 25% de todo o catálogo de insumos e remédios da instituição encontra-se zerado, comprometendo o fluxo de um hospital que atende exclusivamente a alta complexidade.
Entre os itens ausentes ou com estoque crítico (menos de um mês de duração) figuram medicamentos indispensáveis para a manutenção da vida e controle de pacientes graves. Falta noradrenalina — medicação essencial para regular a pressão arterial em UTIs —, morfina, antibióticos injetáveis e itens cirúrgicos básicos, como tubos de intubação, fios cirúrgicos, sondas de aspiração e até bisturis. O consumo de insumos básicos na unidade é massivo; para se ter uma ideia do tamanho da engrenagem, o hospital consome mais de 126 mil unidades de luvas de procedimento (tamanho M) por mês.
O Impacto na Engrenagem de Alta Complexidade
A falta de medicamentos atinge diretamente um ecossistema hospitalar desenhado para absorver os casos mais difíceis do RN. Atualmente, o Walfredo Gurgel dispõe de 210 leitos ativos e 54 leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), operando como a grande referência regulada para pacientes politraumatizados, vítimas de queimaduras graves e pessoas acometidas por Acidente Vascular Cerebral (AVC).
Com uma rotatividade intensa que registra entre 45 e 50 novos internamentos e altas diariamente, o hospital realiza uma média expressiva de 850 a 900 cirurgias mensais. Sem os materiais adequados na farmácia central, os procedimentos de urgência correm riscos de adiamento e forçam acompanhantes e familiares a comprarem, do próprio bolso, insumos básicos para garantir a assistência e o fechamento de cirurgias dos seus parentes.
Posicionamento Oficial da Sesap
Diante da repercussão do relatório técnico, o secretário de Estado da Saúde Pública do RN, Alexandre Motta, realizou uma visita técnica ao Centro de Abastecimento do hospital. A gestão estadual admitiu a gravidade do relatório, mas ressaltou que o documento integra rotinas de monitoramento preventivo para acelerar compras emergenciais. Segundo a Secretaria de Saúde (Sesap-RN), medidas como permutas entre hospitais da rede, empréstimos de insumos e novas licitações estão sendo adotadas para mitigar o problema e afastar o risco de interrupção total dos serviços.
A crise reabre o debate sobre a descentralização da saúde potiguar e a urgência de aportes orçamentários contínuos nas unidades que sustentam a vida de milhares de norte-rio-grandenses diariamente.
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