Editorial
Na tradição oriental, a imagem dos três macacos sábios — o que cobre os olhos, o que tapa os ouvidos e o que fecha a boca — carrega um ensinamento ancestral sobre como evitar o mal, não permitindo que a negatividade entre em nossa vida. No entanto, quando essa mesma imagem é transposta para o cenário político e institucional do Brasil contemporâneo, especialmente no atual momento vivido pelo Supremo Tribunal Federal (STF), a metáfora ganha um contorno inverso e preocupante. A postura do “não vejo, não ouço, não falo” deixou de ser um símbolo de sabedoria para se tornar o retrato do maior risco que corre a nossa democracia: a omissão.
Marcada para os próximos dias, a inédita sessão em que o plenário da Suprema Corte decidirá se autoriza uma investigação criminal contra um de seus membros coloca o tribunal diante de um espelho histórico. O cidadão brasileiro, cansado de crises cíclicas e da sensação de insegurança jurídica, não aceita mais que as instituições adotem a postura do primeiro macaquinho, aquele que tapa os olhos. Diante de relatórios técnicos, mensagens expostas e indícios que afetam a moralidade pública, fingir que nada está acontecendo ou desviar o olhar por meio de manobras técnicas e formalismos jurídicos é fechar os olhos para a própria realidade do país.
O tribunal também não pode se comportar como o segundo macaquinho, que tapa os ouvidos. O clamor que vem das ruas, o desalento do trabalhador e a desconfiança que ecoa no mercado internacional e na sociedade civil são ruídos altos demais para serem ignorados. Uma Justiça que se isola em uma torre de marfim e se recusa a ouvir as cobranças legítimas por transparência e igualdade perante a lei perde a sua conexão com o povo em nome do qual o poder é exercido. A autoridade não se impõe pelo silêncio imposto, mas pelo respeito conquistado.
Por fim, o Brasil exige que o STF abandone o gesto do terceiro macaquinho, aquele que cala a boca. A autoconservação corporativa ou o silêncio obsequioso entre pares não podem silenciar a verdade. A resposta que os brasileiros esperam na próxima terça-feira não é o silenciamento dos fatos sob o tapete da burocracia, mas uma fala firme, clara e transparente. Se há culpa, que se investigue e se puna; se há inocência, que se prove às claras, sob a luz do sol do plenário público.
O custo de continuar fingindo que não vê, não ouve e não fala é a falência definitiva da credibilidade institucional. Para que o brasileiro volte a acreditar em tempos melhores e para que o mundo volte a respeitar a solidez da nossa engrenagem democrática, o Supremo precisa mostrar que suas vendas cobrem apenas os olhos da estátua da Justiça — para garantir a imparcialidade —, e não os olhos dos magistrados que têm o dever de passar o país a limpo. É hora de abrir os olhos, escutar a nação e falar a linguagem da verdade.







Deixe um comentário