O clima de instabilidade na gestão da saúde pública do Rio Grande do Norte ganhou novos desdobramentos de cunho político e operacional. Em meio a um cenário de sucessivos protestos e alertas de greve por parte das categorias profissionais e sindicatos, declarações recentes feitas pelo secretário estadual de Saúde, Alexandre Motta, acenderam uma forte polêmica com as empresas prestadoras de serviços terceirizados que atuam nos hospitais do Estado.
Em manifestações publicadas em suas redes sociais, o chefe da Secretaria de Estado da Saúde Pública (SESAP/RN) sugeriu publicamente que a paralisação recente de colaboradores da saúde, registrada em um domingo de plantão, poderia carregar motivações de cunho político-partidário devido ao início do calendário eleitoral. A fala do gestor, no entanto, sofreu contestação imediata por parte do setor privado que gerencia a mão de obra.
Empresa Contesta Versão Oficial e Expõe Atrasos
Em resposta direta ao secretário Alexandre Motta, a CFO do Grupo Justiz, Brenda Justiz, utilizou canais de comunicação para divulgar um vídeo de posicionamento institucional da empresa. Na gravação, a executiva rejeitou veementemente qualquer associação da organização a interesses políticos e rebateu a narrativa da SESAP, esclarecendo que a empresa cumpre rigorosamente os acordos firmados com os sindicatos.
A executiva detalhou que o pagamento dos trabalhadores terceirizados foi depositado regularmente dentro do prazo acordado. Contudo, ela trouxe a público dados financeiros sobre as pendências do Governo do Estado: o repasse financeiro citado pelo secretário da SESAP à empresa era referente à competência do mês de maio e foi quitado de maneira apenas parcial pelo erário estadual. O grupo empresarial defendeu que o direito de mobilização é de condução exclusiva do sindicato dos trabalhadores da saúde e cobrou que o debate seja tratado de forma institucional, sem narrativas ideológicas.
Histórico de Precarização e Cobranças ao Governo Fátima
O atual conflito com os terceirizados ocorre em um momento em que a rede hospitalar potiguar já enfrenta severo desgaste. Ao longo dos últimos meses, o Sindsaúde/RN comandou paralisações de advertência de 24 horas em frente à sede da SESAP, em Natal, para denunciar uma realidade cruel vivenciada pelos servidores efetivos e contratados.
Entre as principais denúncias do sindicato estão a sobrecarga extrema de trabalho decorrente do déficit de pessoal, plantões exaustivos e problemas no fornecimento de alimentação em unidades de grande porte, como o Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel. A categoria também pressiona o governo de Fátima Bezerra pela implantação da recomposição salarial baseada no IPCA e exige a convocação imediata dos profissionais de enfermagem, técnicos e administrativos aprovados no último concurso público da SESAP.
Falhas de Comunicação e Interdições
A instabilidade gerencial da pasta também se reflete em problemas de articulação interna com órgãos de fiscalização profissional. Recentemente, a própria SESAP admitiu publicamente a existência de sérias falhas de comunicação com o Conselho Regional de Enfermagem (Coren-RN), após o órgão fiscalizador determinar a interdição ética de enfermarias no Hospital Psiquiátrico Professor Severino Lopes (João Machado) devido a problemas estruturais. A secretaria adjunta da pasta reconheceu que o governo falhou ao deixar de enviar relatórios sobre as reformas que estavam em andamento na unidade, gerando a necessidade de transferências emergenciais de pacientes.
O impasse generalizado na saúde — que envolve desde o pagamento a fornecedores até a reposição da inflação para os servidores — mantém o sistema sob constante estado de alerta para novas greves por tempo indeterminado, gerando preocupação na população que depende do Sistema Único de Saúde (SUS) no Rio Grande do Norte.







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