Sempre que se fala no peso econômico dos municípios do interior do Rio Grande do Norte, regiões ligadas ao petróleo e ao agronegócio costumam dominar o imaginário popular. No entanto, Currais Novos consolidou-se em uma posição de destaque absoluto e estratégico, assumindo o papel de principal motor financeiro da atividade extrativista mineral em solo potiguar.
O avanço na extração de riquezas do subsolo colocou o município em uma trajetória de crescimento exponencial. Dados oficiais da Agência Nacional de Mineração (ANM) revelam um cenário impressionante: a capital do Seridó Oriental responde por nada menos que 83,7% de todo o valor arrecadado pelo estado através da Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM) — os chamados royalties da mineração.
O impacto dos números: a força do ouro
A engrenagem que impulsionou essa arrecadação histórica começou a girar com intensidade após o início oficial da exploração comercial do projeto Aura Borborema, capitaneado pela mineradora canadense Aura Minerals. O início das operações consolidou o Rio Grande do Norte como a 6ª maior potência na produção de ouro do Brasil.
Para se ter uma ideia do impacto no caixa municipal, dos R$ 8,3 milhões gerados em receitas por CFEM para o estado nos primeiros quatro meses do ano, Currais Novos concentrou sozinha R$ 6,9 milhões. Esse montante expressivo, obtido em apenas um quadrimestre, já equivale a quase 90% de toda a arrecadação anual por royalties que a cidade registrou no ano anterior.
A geopolítica e o retorno triunfal do Tungstênio
Se o ouro garante o volume financeiro recente, o tungstênio traz a tradição e um novo fôlego bilionário para a região. Currais Novos, que abriga a histórica Mina Brejuí (maior jazida de scheelita da América do Sul), está surfando no topo de uma crise de abastecimento global que mexeu com a economia internacional.
Nos últimos meses, as severas restrições de exportação impostas pela China (que domina mais de 80% do mercado mundial) geraram uma escassez estrutural do metal. Como resultado imediato, o preço do tungstênio quadruplicou no mercado internacional, provocando uma alta histórica de mais de 350% no valor das exportações desse minério no Rio Grande do Norte.
Por ser o metal com o maior ponto de fusão do planeta e ter extrema resistência à tração, o tungstênio virou o elemento mais cobiçado da geopolítica atual. Suas aplicações são críticas e indispensáveis:
- Indústria de Defesa e Armas: Fundamental para a produção de blindagens pesadas, mísseis e munições de alta performance devido ao cenário de conflitos globais.
- Tecnologia Avançada: Componente essencial no desenvolvimento de microchips modernos, semicondutores e telas de smartphones.
- Transição Energética: Utilizado na fabricação de super-baterias e motores para o setor de veículos elétricos.
- Usinagem Pesada: Matéria-prima para brocas e perfuratrizes de metal duro usadas na exploração de petróleo e mineração.
Com a valorização multiplicada por quatro, as antigas jazidas e rejeitos de Currais Novos e de municípios vizinhos como Bodó voltaram a atrair o interesse de grandes investidores globais e do Serviço Geológico do Brasil, transformando o Seridó em um ponto estratégico no mapa de segurança industrial do Ocidente.
Geração de empregos e desenvolvimento no interior
O reflexo desse boom mineral duplo — do ouro e do tungstênio — não se limita aos cofres da prefeitura; ele transforma o mercado de trabalho regional. O setor de extração injetou milhares de novos empregos diretos e indiretos de carteira assinada em Currais Novos, movimentando o comércio local, o setor imobiliário e os serviços.
Essa expansão consolidou Currais Novos na 4ª posição entre as cidades com maior índice de crescimento e empregabilidade no interior do estado. O município alcançou um marco social relevante, registrando mais postos formais de trabalho ativos do que famílias beneficiárias de programas de transferência de renda, como o Bolsa Família.
O desafio do crescimento sustentável e social
Como todo ciclo de forte expansão industrial e extrativista, o “eldorado” seridoense traz consigo grandes desafios estruturais que precisam ser debatidos com transparência e responsabilidade. O crescimento acelerado impõe pressões sobre os serviços públicos municipais, como saúde, trânsito e moradia.
Além disso, relatórios técnicos recentes elaborados por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) apontam que as comunidades rurais localizadas no entorno do projeto — nas divisas entre Currais Novos e Campo Redondo — vêm relatando problemas estruturais em residências e cisternas associados às vibrações das explosões na mina profunda.
Para que a riqueza gerada pelos royalties se converta em um benefício real a longo prazo, o grande desafio das lideranças locais, da Federação dos Municípios do RN (Femurn) e das agências reguladoras será garantir que esses recursos bilionários sejam aplicados em projetos de diversificação econômica, infraestrutura urbana duradoura e rígidas compensações socioambientais.
Currais Novos prova que o interior tem força para sustentar a economia do RN, e a riqueza que sai de suas terras desenha um novo capítulo no desenvolvimento do Seridó.







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