O raio-x definitivo do tribunal que se transformou no verdadeiro epicentro do poder e das crises institucionais no país.
O Supremo Tribunal Federal (STF) nunca esteve tão centralizado nos debates políticos do Brasil. De garantidor da Constituição, o colegiado passou a ser visto por críticos como um ator político dominante, cujas decisões monocráticas afetam diretamente a economia, o Congresso e a liberdade de expressão.
Para que o leitor compreenda a atual crise que divide a Corte — evidenciada no recente racha entre Alexandre de Moraes e André Mendonça —, o Portal JB Moura preparou este panorama especial com a biografia, a indicação e as principais polêmicas de cada um dos 11 magistrados.
1. Gilmar Mendes (Decano da Corte)
- Como chegou lá: Indicado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC) em 2002. Antes, era Advogado-Geral da União (AGU).
- Perfil de atuação: Garantista extremo em matéria penal, crítico feroz do Ministério Público e defensor da blindagem da classe política.
- Principais polêmicas: Ficou conhecido nacionalmente como o “campeão de habeas corpus”, concedendo solturas em série para empresários e políticos presos na Operação Lava Jato, como Jacob Barata Filho. Atuou fortemente para anular as condenações da força-tarefa de Curitiba.
2. Cármen Lúcia
- Como chegou lá: Indicada pelo presidente Lula em 2006. Vinha da advocacia pública em Minas Gerais.
- Perfil de atuação: Tecnicamente rigorosa, com perfil mais reservado. Costuma votar alinhada à pauta dos direitos humanos, minorias e defesa rigorosa do processo eleitoral.
- Principais polêmicas: Seu voto foi decisivo para permitir a prisão em segunda instância do próprio Lula em 2018. Recentemente, foi duramente criticada pela oposição ao justificar votos em matérias de censura prévia no TSE sob o argumento de que se tratava de uma “situação excepcionalíssima”.
3. Dias Toffoli
- Como chegou lá: Indicado pelo presidente Lula em 2009. Foi advogado de campanhas do PT e Advogado-Geral da União.
- Perfil de atuação: Focado na interlocução política entre os Poderes. Adota postura pró-Estado e pró-governo na maioria dos temas econômicos.
- Principais polêmicas: Foi o criador do controverso “Inquérito das Fake News” (Inquérito 4.781) em 2019, instaurado de ofício sem manifestação do MP. Recentemente, causou forte indignação ao anular todas as provas do acordo de leniência da Odebrecht, invalidando multas bilionárias de empreiteiras.
4. Luiz Fux
- Como chegou lá: Indicado pela presidente Dilma Rousseff em 2011. Magistrado de carreira (foi juiz, desembargador e ministro do STJ).
- Perfil de atuação: Alinhado a pautas corporativas do Judiciário. Durante anos, foi considerado o principal aliado da Operação Lava Jato dentro da Corte.
- Principais polêmicas: Críticos apontam que ele segurou por anos de forma monocrática o julgamento do “auxílio-moradia” para juízes de todo o país, gerando bilhões em gastos públicos até que o benefício fosse regulamentado.
5. Rosa Weber
- Como chegou lá: Indicada pela presidente Dilma Rousseff em 2011. Oriunda da magistratura trabalhista.
- Perfil de atuação: Altamente técnica e formalista, avessa a holofotes e entrevistas.
- Principais polêmicas: Apesar de sua postura discreta, tomou decisões que abalaram o Planalto, como a suspensão das emendas de relator (o chamado “Orçamento Secreto”) durante o governo Bolsonaro, e o voto histórico pela descriminalização do aborto até a 12ª semana de gestação antes de se aposentar da presidência.
6. Luís Roberto Barroso (Atual Presidente do STF)
- Como chegou lá: Indicado pela presidente Dilma Rousseff em 2013. Era um dos constitucionalistas mais renomados do país e procurador do Estado do Rio de Janeiro.
- Perfil de atuação: Progressista e ativista judicial. Defende que o STF deve empurrar a história e o progresso social quando o Congresso se omite.
- Principais polêmicas: Coleciona embates públicos. Durante um evento acadêmico nos EUA, rebateu um manifestante com a frase “Perdeu, mané, não amola”. Em outra ocasião, gerou forte reação da direita ao discursar em um congresso da UNE afirmando: “Nós derrotamos o bolsonarismo”.
7. Edson Fachin
- Como chegou lá: Indicado pela presidente Dilma Rousseff em 2015. Era advogado e professor de Direito Civil no Paraná, apoiado por movimentos sociais de esquerda.
- Perfil de atuação: Assumiu de surpresa a relatoria da Lava Jato após a morte de Teori Zavascki. Adota postura rígida contra a corrupção, mas defensora de garantias sociais.
- Principais polêmicas: Surpreendeu o mundo político ao assinar a decisão monocrática que anulou todas as condenações do presidente Lula na esteira da Lava Jato de Curitiba, reabilitando os direitos políticos do petista e mudando o destino da história recente do país.
8. Alexandre de Moraes
- Como chegou lá: Indicado pelo presidente Michel Temer em 2017. Foi secretário de Segurança de SP e Ministro da Justiça.
- Perfil de atuação: O ministro mais centralizador e temido do país. Conduz investigações com punho de ferro sob a justificativa de “defesa da democracia”.
- Principais polêmicas: Centraliza inquéritos sigilosos sem prazo para acabar. Ordenou prisões de parlamentares, bloqueio de contas bancárias, censura a portais de notícias e a suspensão da rede social X (antigo Twitter) no Brasil. O escândalo mais recente envolve o uso não oficial do TSE para abastecer seus inquéritos no STF e denúncias de contratos de familiares com o Banco Master.
9. Kassio Nunes Marques
- Como chegou lá: Indicado pelo presidente Jair Bolsonaro em 2020. Era desembargador do TRF-1.
- Perfil de atuação: Alinhado a pautas econômicas de interesse do agronegócio e posições mais conservadoras.
- Principais polêmicas: Pouco antes da eleição de 2022, devolveu os direitos políticos do bicheiro Rogério Andrade e do ex-deputado Valdemar Costa Neto. Suas decisões costumam blindar aliados da gestão Bolsonaro, o que gerou acusações de alinhamento político.
10. André Mendonça
- Como chegou lá: Indicado pelo presidente Jair Bolsonaro em 2021 sob a promessa de levar um ministro “terrivelmente evangélico” ao STF. Foi AGU e Ministro da Justiça.
- Perfil de atuação: Conservador em pautas de costumes e defensor de garantias institucionais.
- Principais polêmicas: Protagonizou o mais recente terremoto na Corte ao quebrar o sigilo de investigações da PF e ordenar uma devassa contra o colega Alexandre de Moraes, expondo um racha sem precedentes no tribunal e gerando uma forte guerra de decisões nos bastidores.
11. Cristiano Zanin
- Como chegou lá: Indicado pelo presidente Lula em 2023. Foi o advogado pessoal que defendeu Lula durante os processos da Operação Lava Jato.
- Perfil de atuação: Surpreendeu a esquerda ao adotar uma postura conservadora e formalista em seus primeiros votos em matéria penal e social.
- Principais polêmicas: Sua indicação foi amplamente criticada por violar o princípio da impessoalidade, uma vez que o presidente da República colocou o próprio advogado particular na mais alta Corte do país. Votou contra a descriminalização do porte de drogas e contra a equiparação da homofobia ao crime de racismo, irritando a base governista.






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