A jornada rumo à maternidade esbarra, muitas vezes, em obstáculos pouco conhecidos e de difícil acesso ao diagnóstico no Sistema Único de Saúde (SUS). Um dos mais graves é a trombofilia, uma predisposição genética ou adquirida à formação de coágulos sanguíneos. Embora frequentemente assintomática em homens e mulheres fora do ciclo reprodutivo, a condição manifesta sua face mais destrutiva na gravidez.
Durante a gestação, o organismo feminino naturalmente aumenta a coagulação sanguínea para evitar hemorragias no parto. No entanto, para as mulheres com trombofilia, esse mecanismo é potencializado de forma perigosa. “Um trombo na placenta leva, muitas vezes, à morte do bebê”, explica a médica Maria da Guia Medeiros Garcia, diretora técnica da Maternidade Escola Januário Cicco (MEJC), referência estadual de atendimento.
Três possíveis desdobramentos clínicos da Trombofilia na Gestação:
- Abortamentos de repetição e óbito fetal tardio: O entupimento dos vasos placentários obstrui o fluxo sanguíneo, privando o feto de oxigênio e nutrientes vitais.
- Restrição de crescimento fetal e prematuridade extrema: O bebê não consegue se desenvolver adequadamente devido à insuficiência placentária, forçando partos antecipados.
- Riscos maternos graves: Complicações como a pré-eclâmpsia precoce ou o deslocamento de coágulos para órgãos vitais, gerando embolia pulmonar ou AVC.
Gargalos e Desafios no RN
O principal sinal de alerta para a investigação ocorre após o histórico adverso de pelo menos duas perdas gestacionais consecutivas sem causa aparente. O diagnóstico é realizado por meio de painéis de exames de sangue específicos (como os testes para o Fator V de Leiden e a Síndrome do Anticorpo Antifosfolípide).
No âmbito legal, o estado sancionou a Lei Estadual nº 11.053/2022, que institui a obrigatoriedade de o SUS realizar exames para a detecção da condição sob critério médico. Na prática diária, contudo, pacientes do interior enfrentam dificuldades na jornada assistencial, que exige o deslocamento regulado para maternidades de alta complexidade em polos como Natal e Mossoró.
O tratamento preventivo envolve o uso diário de injeções de anticoagulantes (como a enoxaparina) durante toda a gestação, estendendo-se ao período pós-parto, quando o risco de trombose chega a ser dez vezes maior.








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