Editorial
Quem cresceu no Brasil nas últimas décadas certamente ouviu a clássica frase materna: “Na volta a gente compra”. Sabíamos, lá no fundo, que aquela era uma forma gentil de adiar um desejo ou de esconder que o orçamento não dava. O problema é que aquela criança cresceu e, hoje, parece ter transferido a mesma fé cega para as promessas do cenário público. A geração criada sob a promessa do “na volta eu compro” agora consome discursos políticos sem analisar se eles são realizáveis e, principalmente, qual será o seu custo real.
Vivemos a era das aprovações feitas “nas coxas”, de pacotes econômicos e canetadas eleitoreiras que buscam o aplauso imediato, mas empurram o vencimento da fatura para o futuro. Há quem defenda, de forma quase ingênua, que para resolver a pobreza ou financiar direitos basta imprimir mais dinheiro. Esquecem-se — ou ignoram — que a economia não aceita desaforo. Dinheiro sem lastro de produção é apenas papel pintado. O resultado direto dessa ilusão é a inflação invisível: a perda severa e contínua do poder de compra que sufoca o trabalhador no supermercado.
O preço dessas decisões imediatistas não é pago em planilhas abstratas de Brasília, mas sim no balcão dos serviços mais essenciais:
- Na educação que “deixa passar”:
- Escolas que priorizam estatísticas de aprovação em vez do aprendizado real.
- Formam-se cidadãos com diplomas, mas sem a capacidade crítica de ler o mundo e interpretar os contratos da própria vida.
- Na saúde que virou loteria:
- O acesso a um exame de alta complexidade ou a uma consulta com especialista tornou-se um sorteio de quem será contemplado a tempo.
- A dignidade humana não pode depender da sorte ou de apadrinhamento político.
A verdadeira maturidade de uma sociedade começa quando paramos de acreditar em almoço grátis. Toda ação do Estado tem um preço, e a conta sempre chega para quem produz e para quem trabalha. Continuar aceitando promessas sem perguntar “quem vai pagar por isso?” é garantir que a próxima geração continue esperando por uma “volta” que nunca vai chegar.








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