O Seridó potiguar está secando em silêncio sob os olhos inertes do poder público. Neste final de setembro de 2026, o Operador de Águas do RN (Caern) confirmou que o abastecimento regular foi suspenso em Currais Novos (41.000 habitantes) e Acari (11.000 habitantes), decretando o estado de colapso hídrico. O Açude Dourado opera com menos de 1% de sua capacidade, enquanto o Gargalheiras evapora a passos largos.
Para piorar, um ofício interno da Caern acendeu o alerta vermelho para o resto da região: cinco mananciais estratégicos vão esgotar totalmente até dezembro, deixando mais de 63 mil pessoas sem água nas torneiras. O fantasma do colapso total avança sobre Parelhas, Carnaúba dos Dantas, Equador, Jardim do Seridó, São João do Sabugi, Ipueira, São José do Seridó e Ouro Branco. Ao todo, quase 140 mil seridoenses correm o risco de depender exclusivamente de frotas insuficientes de carros-pipa, uma resposta medieval para uma das regiões mais ricas do estado.
A Novela do Cronograma: Promessas rasgadas e aditamentos
O colapso atual não é culpa do clima; é uma tragédia administrativa com nome e sobrenome. A grande salvação da região, o Projeto Adutora do Seridó, arrasta-se em ritmo de tartaruga desde que foi iniciado em 2022. O projeto, orçado no valor total de R$ 326,5 milhões (com previsão de alcançar R$ 610 milhões para a rede completa), deveria ter sido entregue originalmente em 2025.
No entanto, em maio deste ano, o Ministério da Integração (MIDR) e a Codevasf confessaram o estouro do planejamento. Devido a entraves financeiros, falhas de engenharia e disputas técnicas com as empreiteiras, o cronograma oficial foi oficialmente empurrado para 2027. Com a água batendo no pescoço na seca de setembro, a Semarh estadual tenta emplacar um “paliativo do paliativo”: promete entregar o Trecho Norte (para bombear água de Assú para Currais Novos e Acari) até dezembro. Até o momento, apenas 51% das obras físicas foram executadas. Metade da adutora é cano seco sob o sol do sertão.
O Escândalo do Dinheiro Enterrado: A Velha Adutora de Engate Rápido
Para entender a indignação do seridoense, é preciso ativar a memória fiscal. Durante a crise hídrica passada, o governo gastou mais de R$ 40 milhões na construção da antiga Adutora de Engate Rápido de Currais Novos. O que deveria ser uma solução emergencial segura revelou-se um desperdício vexatório de dinheiro público: canos de PVC de baixíssima qualidade foram enterrados às pressas, sofreram com dezenas de estouramentos e hoje a estrutura está completamente sucateada e inservível. Quarenta milhões de reais literalmente jogados no lixo, enquanto a solução definitiva continuou patinando na burocracia.
O Estado responde a essa paralisia com contratos milionários de carros-pipa. Esse modelo consolida uma “indústria da seca” no RN. É politicamente vantajoso para certas oligarquias locais manter o interior dependente do caminhão de água, perpetuando o clientelismo de balde em vez de entregar a infraestrutura que liberta o cidadão.
A Conta dos Impostos: O Seridó sustenta o RN, mas recebe migalhas
A humilhação do colapso hídrico ganha contornos de revolta quando cruzamos os dados econômicos. O Seridó não é um peso morto para o estado; é um dos maiores motores de riqueza do Rio Grande do Norte:
- Currais Novos e a Indústria: A cidade abriga a Mina Brejuí, novos projetos de mineração de ouro e tungstênio, além de um forte comércio e indústrias têxteis de confecção. Ainda devemos considerar que a cidade foi responsável por 83% dos Royalties da mineração do estado.
- Potência de Impostos: O Seridó responde por quase 12% da arrecadação total de ICMS do Rio Grande do Norte, impulsionado pelo turismo religioso, a bacia leiteira (que produz os famosos queijos de coalho e manteiga) e o setor de serviços.
É um paradoxo econômico cruel: a gorda fatia de impostos que sai das indústrias e do comércio de Currais Novos, Parelhas e Acari viaja para o caixa central em Natal para sustentar a máquina pública da capital. Mas quando o seridoense abre a torneira em casa, só sai ar. A região devolve bilhões de reais em tributos acumulados ao longo dos anos, mas recebe de volta o tratamento de cidadãos de segunda categoria.
🧠 A dignidade não cabe em um balde de água
O colapso hídrico do Seridó em 2026 é a prova definitiva da falência do planejamento estratégico e do respeito federativo do governo estadual com o interior. Tratar a água como um favor político e adiar a conclusão de uma adutora de R$ 326,5 milhões enquanto gasta fortunas com medidas paliativas é um crime contra o nosso desenvolvimento.
As indústrias têxteis e os laticínios do Seridó, que geram milhares de empregos, ameaçam fechar as portas ou migrar para estados vizinhos, como a Paraíba, que tratou suas obras de transposição com muito mais agilidade. O povo do Seridó não quer esmola, não quer o paliativo eterno do carro-pipa e não aceita mais desculpas de “entraves técnicos”. Quem paga impostos de primeiro mundo exige infraestrutura de primeiro mundo. A adutora precisa ser concluída já, ou o governo estadual terá que assinar o termo de falência do interior potiguar.








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