O cinema nacional vive um momento de consagração histórica, e o Rio Grande do Norte ocupa um papel central nessa conquista. O longa-metragem “Feito Pipa”, dirigido pelo aclamado diretor Allan Deberton, foi oficialmente selecionado pela Academia Brasileira de Cinema para representar o país na disputa por uma vaga no Oscar 2027, na categoria de Melhor Filme Internacional.

Embora o título remeta à famosa praia potiguar, o filme foi integralmente rodado no sertão de Quixadá, no Ceará, utilizando a metáfora da pipa (arraia) para ilustrar a liberdade e a jornada lúdica do protagonista de 11 anos, vivido pelo jovem Yuri Gomes. Contudo, o verdadeiro coração e a essência da narrativa trazem um “DNA” puramente norte-rio-grandense nos bastidores.

A Força da UERN e a Inspiração em São Rafael (RN)

O roteiro do longa é assinado por André Araújo, um talento cearense cuja formação intelectual e artística foi lapidada em solo potiguar. André é egresso do curso de Comunicação Social da UERN (Universidade do Estado do Rio Grande do Norte), no campus de Mossoró. E foi justamente durante os seus tempos de estudante universitário que a semente de “Feito Pipa” foi plantada.

Ao produzir o seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), André viajou até as ruínas de São Rafael/RN. A histórica cidade que foi propositalmente inundada na década de 1980 para a construção da Barragem Armando Ribeiro Gonçalves. Ao ouvir os relatos dolorosos e cheios de nostalgia dos antigos moradores sobre as memórias que ficaram submersas pelas águas, o roteirista encontrou a base emocional para construir a trama de seu longa-metragem: a tocante história de um menino que tenta, a todo custo, preservar as memórias de sua avó (Teca Pereira) diante do avanço implacável do Alzheimer.

Estrelas na Tela e Reconhecimento Internacional

Completando o elenco de peso, o filme traz o astro Lázaro Ramos no papel de um pai ausente e homofóbico, cujas complexidades familiares ditam o ritmo dramático da obra. Antes de se tornar o representante oficial do Brasil na corrida pelo Oscar, “Feito Pipa” já havia conquistado os olhos da crítica europeia, sendo ovacionado e premiado com o prestigiado Urso de Cristal no Festival de Berlim.

🧠 O Triunfo da Universidade Pública do Interior

A trajetória de “Feito Pipa” rumo ao Oscar é uma vitória que deve ser celebrada além dos tapetes vermelhos. Ela escancara o papel vital da universidade pública e descentralizada no desenvolvimento da cultura brasileira. Quando o Estado investe em um campus da UERN no interior, ele não está apenas emitindo diplomas; está fornecendo ferramentas para que jovens pesquisem a nossa própria história e transformem as dores e causos de uma cidade como São Rafael em arte de alcance global.

O sucesso deste filme prova que o Nordeste não precisa mimetizar os padrões estéticos do Sudeste para ser universal. A caatinga de Quixadá e as ruínas submersas do interior do RN possuem uma força poética avassaladora. Que o reconhecimento de André Araújo sirva de lição para os gestores públicos: apoiar o cinema e a pesquisa universitária regional não é um gasto supérfluo, mas o único caminho para fazermos a nossa identidade voar alto, livre e sem amarras, feito pipa.

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João Batista de Moura

Com formação em Pedagogia, Teologia e Psicanálise, além de MBA em Marketing e Gestão de Pessoas, JB Moura construiu uma trajetória consistente e multidisciplinar voltada à comunicação, ao desenvolvimento humano e à liderança.

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