No suntuoso pódio das Nações Unidas, em Nova York, o discurso é sempre limpo, altivo e soberano. Diante de líderes globais e sob os olhos atentos de Washington, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva bradou que o Brasil está pronto, forte e preparado para enfrentar as organizações criminosas. “Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas”, disse o petista, rebatendo o recente relatório do governo de Donald Trump que acusou o país de falhar no combate ao PCC e ao Comando Vermelho. A retórica é impecável. O som da voz é firme. Mas quando o eco das palmas em Manhattan cessa e aterrissamos na realidade do solo brasileiro, o cenário desenha uma crônica de horror bem diferente.
Dizer que o país está preparado para “enfrentar” as facções é o tipo de verniz institucional que a diplomacia exige, mas que o cotidiano desmente com violência diária. O crime organizado no Brasil moderno há muito tempo deixou de ser uma patologia das periferias ou um problema de patrulhamento de fronteiras. Ele evoluiu. Sofisticou-se. Hoje, o crime não bate de frente com o Estado; ele se funde a ele. O maior desafio do enfrentamento não está na falta de homens nas polícias ou na ausência de uma PEC da Segurança. O problema é que o cupim das facções já corroeu e se inseriu nas estruturas mais profundas dos Três Poderes.
Onde o presidente enxerga um “desafio que não subestimamos”, a sociedade assiste, perplexa, à infiltração orgânica do crime na política institucional. São prefeituras do interior e das regiões metropolitanas cujas licitações de coleta de lixo e transporte público são vencidas por empresas de fachada do narcotráfico. São gabinetes legislativos, municipais, estaduais e federais. Onde emendas parlamentares são direcionadas para lavar o dinheiro da milícia e do tráfico. A infiltração alcançou até os escaninhos do Judiciário e do Ministério Público, onde decisões liminares e solturas estratégicas são negociadas a peso de ouro em esquemas que envergonhariam os fundadores da República.
Quando um país chega ao ponto em que o crime organizado dita quem pode fazer campanha em determinado bairro, financia partidos inteiros e possui bancas de advocacia exclusivas operando dentro de tribunais superiores, a afirmação de “estar preparado” soa quase ingênua, se não fosse trágica. O enfrentamento implacável cobrado por Lula na ONU exige reconhecer que o inimigo não veste capuz nem se esconde apenas nas matas da Amazônia; ele usa terno sob medida, tem foro privilegiado e despacha de salas com ar-condicionado em Brasília. Sem expurgar o crime de dentro do próprio aparelho estatal, o discurso internacional continuará sendo apenas uma bela peça de ficção para gringo ver, enquanto o cidadão comum, acuado, assiste à democracia ser loteada pelo crime de colarinho branco e fuzil na mão.









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